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A medida de S. Sebastião

Em todo o mundo católico, particularmente Portugal, RJ e no Maranhão antigo, S. Sebastião é muito cultuado


São Sebastião

São Sebastião Foto: Divulgação

O mundo cristão se movimenta intenso neste momento de morte e dor acentuadas. E na pura tradição letrada, a chamada escatologia, fala-se e escreve bastante. Acredito que outras tradições de saberes também vibram suas percepções sobre a nova espécie de ameaça dessa neo unificação microbiana do mundo.

Tocou forte, o papa Francisco, em Roma, seis da tarde e sob chuva, cruzando sozinho o adro de São Pedro e junto ao pórtico da Sé pontifícia contemplar, em imagem, e oração, o corpo de Jesus cravado na cruz. O fez também ante a imagem mariana mais antiga existente na histórica Cidade dos Apóstolos e Mártires. A beleza da invenção tecnológica permitiu que a imagem do Crucificado fosse vista, de perto, por bilhões de pessoas, levemente banhada por filetes de água pura escorrente da chuva fina e eloquente que naquela hora como que rebatizava a antiga sede imperial.

Também significativa, na sexta, dia 4 passado, a não saída, em mais de século – talvez em dois –, da procissão de Bom Jesus dos Passos, em Oeiras do Piauí, popular caminhada por ruas e becos da velha cidade sertaneja, inscrevendo uma via sacra a anteceder os chamados “dias grandes” da Semana Santa. Mais: na católica Salvador da Bahia, deu-se o contrário: saiu a passear, num andor automovido, a imagem do Senhor do Bonfim – segundo o arcebispo, a terceira vez em séculos. São sinais – há outros - que marcam o agir de cristãos neste instante grave da história humana.

 “Meninos, eu vi”, em Passagem Franca, onde cresci, o povo dizendo ser o padroeiro do lugar, o Mártir São Sebastião, além de “padroeiro dos soldados”, um grande protetor “contra as pestes”. Vi naquele final de 1950 e década seguinte, quando em nossa região se alastravam muitos casos de doenças que “pegam”, quanto era entristecedor, sobretudo nos mais pobres, o pavor se generalizando. Muitos recorriam a rezas e “preces” na Matriz e em casas de morada, gente – mais mulheres – puxando o Terço e cantando hinos ao Padroeiro e à Virgem. Vi também essas jornadas nas “secas”, chuvas tardas ou faltas, pragas de lagartas e pulgões comendo e deixando rente ao chão as leguminosas em brotos nas roças desoladas... E depois das chuvaradas fartas, por vezes outros males da insalubridade apareciam deixando apreensivo o povo trabalhador, ele a sofrer mais nessas horas. Relatos sobre moscas brabas e outros insetos assustadores. E criminosos dizendo que era “coisa do comunismo” ...  

Uma prática algo comum, então, que lembro todo dia em meio às apreensões do agora: gente fazendo fila na Matriz pedindo para “tirar a medida de São Sebastião”. Eu vi e era o encarregado de retirar a Imagem do nicho e descê-la para que pessoas a beijassem e dela tirassem a medida – que faziam com uma fitinha ou linha grossa a ser usada como pulseira ou no pescoço dos fiéis a proteger. Isso fiz durante o tempo em que acolitei as funções próprias da dita Matriz. Muito venerada e querida de toda nossa póvoa essa Imagem do Padroeiro, de madeira pintada e mais ou menos quarenta centímetros, incluindo a “laranjeira” em que amarraram o Mártir. Imagem do “dono da igreja” e “dono da cidade”, também muito acatado por essa condição, que é inclusive jurídica e se conserva até nossos dias.

Em todo o mundo católico, particularmente Portugal, RJ e no Maranhão antigo, S. Sebastião é muito cultuado e sempre é invocada sua intercessão protegendo a humanidade dos males da pestilência. Celebrado em 20 de janeiro, marcado no Santoral Romano, juntam-se na Passagem seus amigos e fregueses a pagar promessas por graças alcançadas.

A Paróquia de Passagem Franca é a primeira no Maranhão a ter o Santo Mártir como orago, junto com a de São Sebastião da Manga do Iguará. Sebastião nasceu em Narbona, Gália, hoje França, então no domínio imperial romano. Mas sua vida pública é notável a partir de Milão. Martírio em Roma, sob Diocleciano, a cuja guarda serviu como soldado.

A Imagem amada pelos passagenses foi furtada em 1978 e, segundo a Polícia, vendida em Teresina.   

Fonte: Fonseca Neto, da APL.

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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