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Cláudio: padre e historiador

A obra de Melo é variada e sua elaboração se dá a partir do contexto e das temáticas mais chamativas de atenção acerca da formação social do Piauí.


Livro do sociólogo e historiador Cláudio Melo

Livro do sociólogo e historiador Cláudio Melo Foto: Divulgação

Com o número 103 de sua Coleção Centenário, a Academia Piauiense de Letras concede à historiografia uma contribuição bastante valiosa. Trata-se da Obra Reunida do padre, sociólogo e historiador Cláudio Melo, professor-doutor e um dos fundadores do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Piauí.

A obra de Melo é variada e sua elaboração se dá a partir do contexto e das temáticas mais chamativas de atenção acerca da formação social do Piauí. Com formação acadêmica fora dos muros e das liturgias universitárias – pois basicamente sacerdotal católica –, ele se apaixonou de tal maneira pelo ofício de historiador, de tal forma que praticamente passou a dedicar quinhões importantes de sua energia vital a esse labor.

Contribuiu muito com a pesquisa sobre a Igreja em terras do Piauí e nessa busca encontrou indicações sobre a formação colonial-social do vale do Parnaíba em suas linhas gerais estruturantes, e mais: avançando em investigações de processos localizados e desconhecidos das atuais gerações.

Repitamos: ele tinha a visão do processo histórico enquanto expressão de uma certa totalidade, contudo, quase intuitivamente, sabendo examinar nas dobras escurecidas e recuadas das temporalidades, a vida social brotando em meio às asperezas da guerra colonial. Nisso facilitou o papel do padre, uma nova espécie de visitador, garimpando, paróquia por paróquia, verdadeiras joias documentais-registrais, que lhe ensejam fontes até então desconhecidas sobre a origem de muitas comunas piauienses.

O livro “reúne” quase cem por cento do que ele deixou publicado, aliás, em edições geralmente precárias, impressas em mimeógrafo.

Ele nasceu em Campo Maior. Feito padre, paroquiou por São Miguel do Tapuio e São Pedro. Aqui em Teresina, foi capelão do Hospital Getúlio Vargas e exerceu outras funções ligados ao sacerdócio. O interesse pela pesquisa aplicada acontece quando ele vai para Roma e por lá completa sua formação doutoral, antecedido por Dissertação de Mestrado em que estudou os fatores estruturais da Pobreza Piauiense.

Já afeiçoado com o estudo e a pesquisa de base historiográfica, resolveu ir buscar algumas respostas sobre a formação do Piauí junto aos arquivos de Portugal, onde, de fato, viu, anotou e até copiou documentos inteiros de muito valor. Documentos que, juntos com o que amealhou nas referidas paróquias e outros arquivos curiais, deu corpo ao seu contributo para se entender o Piauí.

Num desses livros mais conhecidos, ele opina, tocando num nervo simplificador, sobre a direção geográfica da presença do colonizador europeu em terras da futura capitania do Piauí. Tornou-se lugar comum se afirmar que “a colonização ocorreu do sertão para o litoral...”. Da Bahia rumo ao Maranhão. Melo avança argumentos de que o processo é priorizado e se configura a partir de entradas litorâneas, tal ocorrido com capitanias vizinhas, a exemplo do Maranhão e do Ceará.

Uma contribuição talvez mais importante vem com um livro – Fé e Civilização –, realizado com pesquisa mais sistemática em boa fonte primária, sobre a fixação eclesiástica no Piauí. As primeiras freguesias-paróquias, setecentistas, estão ali explicadas com o que a documentação permitia alcançar nas condições em que ele trabalhou. Dedicou um livro à cidade natal – Os primórdios de nossa história, bem anotado. Ele não alcançaria, porém, a maior oferta documental que a disponibilização digital e internética permite hoje em dia. Certamente sua elaboração seria ainda mais robusta. Perfilou figuras que se destacaram na guerra da colonização, com viés de simpatia. Deu clareza à fundação de Caxias, Maranhão, em cuja Faculdade Estadual/Uema, também praticou a docência.

A “indesejada das gentes” o colheu em pleno viço historiografante – e registre-se que sua relação com a hierarquia e colegas padres resultou abalada por seu apego a essa outra dimensão da vida intelectual. Mas perseverou, era homem de Igreja, e não via incompatibilidade entre a instância da fé e o cultivar da intensa paixão por Clio.

Na Academia que agora o homenageia e de resto a toda a inteligência piauiense, ocupou a Cadeira 34, sucedendo a figuras tão icônicas de nossa historiografia, quanto Anísio Britto e Odilon Nunes. O atual ocupante é Zózimo Tavares, professor e jornalista e também um afeiçoado nos estudos da História.     

Deixou vários textos inacabados, a indicar que seria ainda fornido o seu labor seguinte. O Núcleo de Pesquisa e Memória, Nupem, da Ufpi, tem a guarda desses apontamentos, a desafiar novos pesquisadores a seguir na elaboração historiográfica com o devido zelo em beber em fontes primárias. Em que pese suas limitações metodológicas para determinados tratos do ofício, seu apego a documentos era notável, do que o valor do conjunto de sua obra agora disponível reponta, exponencial.

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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