PROA & PROSA

Existenciar-se

No propósito de interpelar a história da formação social brasileira e seu atraso civilizatório


Paulo Freire

Paulo Freire Foto: Divulgação

Existenciar-se? Seria longo um título ortegano: “... o processo em que a vida como biologia passa a ser vida como biografia”.  

Vamos lá. Alguém que não sabe porque existe pode ir muito longe na vida? Pode, nas asas da mais completa inconsciência da realidade.

Essa constatação clama atenção para algo devastador, entre outras questão que poderíamos aludir: o que chamamos de Educação – no foco o Brasil – não passa de um gigantesco simulacro que mais serve às alienações da realidade que passaporte à grandeza do conhecer de si, na construção do viver junto; coletivo.

Os solavancos que vem provocando a facção do fascismo explícito que está violentando os arranjos, já de há muito frágeis, da vida social brasileira, pioram o drama do atraso mental do “gigante pela própria...”, propõe a pura treva e terror contra quem se move para perguntar sobre os abismos a que chegamos em termos de novas-velhas formas de colonização.

No propósito de interpelar a história da formação social brasileira e seu atraso civilizatório, cabe perguntar mais: por que o conservadorismo, o reacionarismo e os próprios fascistas têm tanto ódio do educador Paulo Freire? Por quê?

A busca de resposta ou respostas a essa questão relacionada a obscurantismo, com raízes nas funduras das perversões dominadoras, leva às iluminações da consciência para incensar a razão de cada um para continuar existindo. E à força da comunhão, da energia coletiva, para transformar o processo da vida social.

O ódio que a escumalha política-reacionária devota a Paulo Freire, denota que ela tem um pavor visceral de que, por exemplo, o método de educar que ele praticou, e ensina, leva à imediata compreensão do como alguém se descobre que existe. O método derrete as camadas que encobrem de mentira a realidade que produz a miséria e a desigualdade entre os humanos, que dilaceram e destroem as demais manifestações da vida sobre a terra e até do chamado sistema solar.

Paulo é luminoso. Não sem razão é reconhecido pelos lutadores sociais do mundo conhecido – e até por não lutadores e apenas idealistas – como o paladino genial das esperanças generosas do viver em liberdade. Enquanto houver miséria e a miséria que vem da desigualação socialmente elaborada, ele é um farol, uma lanterna na escuridão. Neste momento em que se arrasta no fundo do esgoto de sua história de sujeições como que insuportáveis, o Brasil reviva, siga as lições do Mestre Paulo. Afugente-se fascista com Freire como ao “tinhoso” com enxofre.

Dele disse Ernani Maria Fiori, extraindo de seu agir-pensar...: “Paulo Freire traduz, em forma de lúcido saber socio-pedagógico, sua grande e apaixonante experiência de educador. Experiência e saber que se dialetam, densificando-se, alongando-se e dando, com nitidez cada vez maior, o contorno e o relevo de sua profunda intuição central: a do educador de vocação humanista que, ao inventar suas técnicas pedagógicas, redescobre através delas o processo histórico em que e por que se constitui a consciência humana. Ou, aproveitando uma sugestão de Ortega, o processo em que a vida como biologia passa a ser vida como biografia.

Talvez seja este o sentido mais exato da alfabetização: aprender a escrever a sua vida, como autor e como como testemunha de sua história, isto é, biografar-se, existenciar-se, historicizar-se. Por isto, a pedagogia de Paulo Freire, sendo método de alfabetização, tem como ideia animadora toda a amplitude humana da ‘educação como prática da liberdade’, o que, em regime de dominação, só se pode produzir e desenvolver na dinâmica de uma ‘pedagogia do oprimido’.”

Exato: Educação como prática da Liberdade e Pedagogia do Oprimido são os textos fundamentais da obra desse brasileiro, entre os maiores, referência das referências dos lutadores de um mundo de iguais-sociais.

Seja nosso feixe de luz nesta hora do império infamante de abomináveis privato-togo-coturnudos que tripudiam sobre nossos saberes desejosos de paz e de justiça.

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Sobre a coluna

FONSECA NETO

FONSECA NETO

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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