PROA E PROSA

Fogo no florão da América

Contudo, no caso do Nero brasileiro, o país inteiro está vendo criminosos tocando fogo nas matas


Amazonia en chamas

Amazonia en chamas Foto: Antropofagista

Dada a senha pelo Nero planaltófilo, criminosos tocam fogo na Amazônia e em diversas partes do Brasil. O pais arde. E é inevitável a lembrança trazida por seculares narrativas que dão conta de que Nero Claudius, o de Roma, tocara fogo nessa cidade, bairros onde moravam os pobres e cristãos, enquanto tocava cítara no cimo de uma das sete famosas colinas do sítio citadino.

Há quem diga que essa narrativa não encerra uma verdade, seria fakenews disseminada por cristãos posteriores. Dê-se ao Imperador, filho de Agripina, o benefício de alguma dúvida – e que se estude mais o assunto.

Contudo, no caso do Nero brasileiro, o país inteiro está vendo criminosos tocando fogo nas matas, roubando o chão, com claro projeto de eliminar populações ancestrais indígenas. O país inteiro está vendo, repita-se, aliás, o mundo, salvo os que não querem, porque que não querem ver. E não são assim tão poucos os que enxergam e concordam.

O que se chama de Brasil é uma promessa de sociedade tributária do colonialismo mercantil-imperialista dos últimos cinco séculos, consistente na pilhagem sistemática de riquezas naturais desta margem do Atlântico. Riqueza natural transformada em riqueza social pela energia vital e a mão de milhões de seres humanos escravizados. Riqueza elaborada para engrossar de ganhos enormes a voragem dos agentes da dita colonização.

A Amazônia chegou ao presente século como um relativo vazio demográfico, dada sua densidade baixa, considerando outras áreas do próprio Brasil e outras regiões do mundo, e da própria Europa, matriz colonizadora.

O fogo na Amazônia é promovido com o explícito estímulo do governo implantado através de um golpe que solapa impunemente as leis, com o apoio de setores institucionais que deveriam defender os interesses da coletividade nacional; o Judiciário, por exemplo. Ao contrário, essas instâncias que operariam o respeito à Constituição, pactuaram a tomada golpista do poder e impuseram uma espécie de Estado de Fato.

Já não é insignificante a propensão e até o modo cultural de se brocar, encoivarar e tocar fogo no preparo das roças pelos sertões quase fim. Mas não é disso que se trata. A queima das matas que ora se faz com intensidade nunca vista, é mesmo pilhagem de uma imensa reserva de riqueza potencializada em terra, águas superficiais, matas/madeiras, fauna abundante, minerais sobre e sob o solo pisável e subaquático.

Explorar a Amazônia é colocar a mão sobre uma riqueza dada. É a lei do menor esforço de um sistema do Capital que a tudo reduz à dimensão financeira, dinâmica de acumulação cujo resultado é o despojamento de muitos dos meios mais elementares de sobreviver sobre a face vivível da Terra.

Outras sociedades humanas e seus Estados estão se manifestando ante o desastre do ataque criminoso que o Brasil promove na Amazônia. Os impostores no poder, agentes de um neoliberalismo ensandecido e tosco, avesso aos ganhos de uma alternativa civilizatória sustentável, não querem saber de nada disso e só entendem de seu próprio poder, isto é, a força da própria brutalidade.

Diante do desastre institucional e dessa espécie de “salve-se quem puder” que domina o Brasil, nas mãos de figuras inescrupulosas, completamente avessas ao que antigamente se chamava “soberania” ou “interesse nacional”, urge uma rearticulação de caráter induvidavelmente popular e em sentido contrário ao que vem ocorrendo.

O fogo se alastra pelos campos amazônicos, enquanto as leis longamente ensaiadas de alguma proteção e exploração racional e concertada, viram pó, em troca de quase nada. É insaciável a voracidade da neocolonização capitalista, que dilacera a pele, devora os músculos e lambe a ossatura do corpo/chão dos brasílicos. Brasílicos? Sim, povo que não tem o aprendizado de aspirar sobre dito chão o erguimento de uma espécie de “pátria”.

O hino, mal-amado e pouco cantado, por poucos entendido, alude ao Brasil “florão da América”. Tola evocação de telurismo que nunca passou de farsesco, por não se ter ainda caracterizado o Brasil na condição de independente real.

Imagine-se que vexame passaria essa casta repugnante de parasitas que golpeiam o Brasil se a maioria da população tivesse conhecimento de que os piromaníacos do capital não têm compromisso algum com o Brasil do povão.

Fonte: Fonseca Neto, da APL.

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Sobre a coluna

FONSECA NETO

FONSECA NETO

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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