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João e Brígida: o Rosário e a Passagem

Cresceu a moça do Cabeça Torta ali pelas redondezas, uma trabalhadora de nossa ruralidade


Igreja N. S. do Rosário

Igreja N. S. do Rosário Foto: Oeirasinvicta

Cena 1 - Brígida é uma figura humana muita lembrada no burgo sertanejo da minha nascença – Passagem Franca.

Dona Brígida Pereira da Silva Martins, também uma filha da dita gleba, nasceu na terra e lugar chamados de Cabeça Torta, morada de negros praticando uma vaqueirice de liberdade. Esses Pereira da Silva são de uma linhagem realmente afro, de um herói vaqueiro de nome Caetano Pereira da Silva. Dele vieram os Caetanos passagenses, que, por sua vez, segundo seu descendente Domingos do Sinda, era oriundo do Brejo de São Félix, mais para perto de Caxias.

Cresceu a moça do Cabeça Torta ali pelas redondezas, uma trabalhadora de nossa ruralidade. Seus pais vaqueiros e todos o eram sem nunca deixar de ser roceiros.

Cena 2 – João de Sousa Martins, de alcunha de “João Preto”, conhecida e brandida com respeito, nasceu na cidade de Oeiras, Piauí, pelo ano de 1904, dia 9 de fevereiro. É filho do famoso Alto do Rosário, bairro em cujo centro está a igreja de Nossa Senhora do Rosário, com seus 250 anos, mais ou menos. Senhora do Rosário que exprime uma fusão de tradições de sentido religioso entre cristãos e afros.

Com 28 anos João chega em Passagem Franca. Em Oeiras ele se engaja e acompanha uma caravana de cearenses do sul que por lá passava, liderada por José Raimundo Lopes, que, qual tropeiro, dirigia-se para Passagem Franca, ao encontro de parentes distantes, e em busca de oportunidades para si e para a sua família. Era o ano de 1932, o Ceará ardendo em seca feroz. Zé Raimundo nunca mais arredaria o pé, de Passagem Franca. Idem, seu companheiro de viagem João Martins.

Cena 3 – Em Passagem Franca, o oeirense João logo conheceria a jovem Brígida, casaram-se, em uma década se colocando entre as figuras mais conhecidas do Largo da Matriz. Casa até hoje conservada e habitação de descendentes seus. João e Brígida tiveram as filhas Adelina (Dilina), Maria Guadalupe (Guarda) e Maria Dina, além do filho Manoel Messias.

Em Memória das Passagens, assim escrevemos sobre ele: “Lavrador. Zelador do Mercado [na Prefeitura Manoel Vasco, 1956]. [Morador e sua família mais antigos no Largo da Matriz], foi testemunha ocular de todos os acontecimentos [ali] havidos décadas afora. Seu famoso “salão” sempre foi uma referência na vida social da cidade: ora servia às emergências da própria Igreja (celebração de missas e outros atos litúrgicos quando em reformas mais demoradas do templo-Matriz), ora servia para a realização de atos profanos tipo bailes de Carnaval e outras folganças; quantos vesperais; quanta matinês.

Uma curiosidade: seu vencimento de zelador do Mercado, em 1956, montava Cr$ 500,00 por mês, superior ao de uma professora leiga. Na mesma época, sua filha Dilina vencia Cr$ 100,00 por mês como zeladora da praça Getúlio Vargas.

Já em 1938 [Interventoria de Augusto Cajueiro], João recebia dos cofres municipais a quantia de 39$400 por “19 (?) Kºs. de toucinho para o serviço de reparos na rodovia desta cidade a margem do Balseiro”, conforme está registrado na documentação da dita Prefeitura.

Essas anotações dão conta de que eles tiveram vida laboriosa, criando e educando os filhos, sendo, repita-se, muito forte a estima que por eles têm todos os passagenses.

Na velha União Artística, é conhecido o engajamento desse lavrador e família. Por vezes discriminados em bailes de “branco” realizados em sua bela sede. Na noite-madrugada do dia em que nasceu o autor destas linhas, uma segunda de Carnaval, o batuque foi dos mais animados, ajuntando a vizinhança e sobretudo dos arredores do Cabeça Torta, Bom Lugar e São Joaquim.

Cena 4 – Falecida em 22 de setembro de 1980, e ele em 14 de outubro de 1989, Brígida e João construíram um lastro de referências na secular Passagem, bem projetada nas pessoas dos referidos filhos e agora dos netos.   

João é um elo vivo entre o sertão central do Piauí e a Passagem Franca, na pessoa de Brígida do Caetano. Um filho do povo de NS do Rosário e uma filha de S. Sebastião.  

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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