VIOLÊNCIA

Crianças fazem trabalho escolar sobre Feminicídio a partir de experiências pessoais

Projeto escolar contou com apresentação teatral, confecção de cartazes, telas, panfletos e palestra com a delegada Anamelka Cadena


Projeto escolar sobre Feminicídio

Projeto escolar sobre Feminicídio Foto: Valciãn Calixto

O que era um simples trabalho escolar sobre Feminicídio ganhou dimensões de evento com tom de conscientização, confecção de cartazes, pinturas, apresentação teatral, leituras, palestra com a presença da delegada Anamelka Cadena abordando o tema e relatos de violência e agressões físicas dentro das casas dos alunos.

Os estudantes da Escola Municipal Barjas Negri, com o apoio da direção escolar, promoveram o encontro durante a tarde desta quinta-feira (10), no pátio do colégio, localizado no bairro Redonda, zona Sudeste de Teresina.

“É um projeto feito por alunos do sexto, sétimo e oitavo ano, meninos que tem entre 12 e 14 anos, escolheram esse tema de violência contra a mulher e feminicídio, pois são coisas que eles vivenciam no seu dia a dia. Todo esse material foi produzido por eles sob orientação do professor de Artes, os desenhos, as fotografias, as crianças pesquisaram, conversaram e estão compreendendo o tema”, disse Joice Daniele, diretora da instituição.

Diretora Joice Daniele

As crianças se mostraram tão empenhadas na realização do projeto escolar que fizeram sorteios e rifas para angariar fundos e assim adquirir materiais para a impressão das fotografias, tinta para os desenhos, madeira para confecção de cruzeiros, outros. “A escola ajudou, a direção, o pessoal da limpeza, os pais, todo mundo, com isso já recebemos convite para levar essa exposição a um outro colégio”, confidencia orgulhosa a diretora.

Contudo, o esforço notado no corpo discente para debater e sensibilizar a comunidade do entorno quanto a temática possui também motivações pessoais. As estudantes Joana Kelly e Maria Clara, ambas cursando o oitavo ano, revelaram vivências que destoam da realidade apropriada para pessoas nessa faixa etária.

Casos de Agressão

Estudantes Maria Clara e Joana Kelly, do 8º ano

“Minha irmã, ela casou com o Paulynho Paixão nova, era dançarina dele, aí aos dezessete anos ele bateu, não sei se vocês ficaram sabendo, mas ele bateu, agrediu aquela moça, ali era minha irmã e foi um choque para a família toda, uma coisa horrível que nem para o pior inimigo a gente deseja, pois mexe muito com o psicológico da pessoa”, relembra Joana, uma das organizadoras do projeto.

Já Maria Clara traz o relato de uma vizinha. “Isso nunca aconteceu comigo, mas eu tenho uma prima que ela se casou com o marido dela e ele não a deixava ela sair pro meio da rua, ele ficava batendo nela, aí ela nunca ligava para a polícia, sempre aguentava, até que um dia o marido matou ela, enterrou e passou até na televisão. Ela não era exatamente minha prima, era tipo uma vizinha que vivia lá em casa, esse marido dela não deixava mais ela ir lá pra casa”, contou.

Panfleto produzido por alunos

Anamelka Cadena

Convidada a palestrar para os estudantes, professores, servidores da escola e para os pais e mães dos alunos, a delegada e diretora de Gestão Interna da Secretaria de Segurança Pública do Piauí, Anamelka Cadena, informou que sua fala tem viés preventivo e educativo.

Delegada Anamelka Cadena

É preciso identificar desde as sinalizações de relacionamento abusivo, de práticas de violências que muitas vezes são banalizadas e não são entendidas como tais, pois podem evoluir para o feminicídio. Todas as imersões que a gente faz na comunidade, a gente também levar em conta a necessidade da desconstrução de antigos valores patriarcais, sexistas, machistas, que fomentam a violência”, esclarece.

Cadena informa que de janeiro a outubro de 2019, o estado do Piauí registrou 20 casos de feminicídio. A maioria com característica de feminicídio íntimo, que é no âmbito da violência doméstica ou familiar, por isso é importante falar nos lugares sobre violência contra a mulher porque percebemos um cenário evitável”, avisa.


Outros dados apresentados pela gestora, levam em conta o anuário brasileiro de segurança pública no que diz respeito ao Piauí. “Se a gente avaliar o que já foi estudado a partir dos inquéritos policiais, há bastante uso de arma branca nos crimes, a média de idade da vítima é de 33 anos, a mulher que o perito identificou como parda, na maioria dos casos, são avaliações feitas tecnicamente e podemos falar delas com segurança”, conclui.

Feminicídio

Trata-se do crime praticado contra mulheres, motivado por violência doméstica ou discriminação de gênero.

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